O que é Ethernet e como funciona: quadro, cabos, velocidades e normas

Conector RJ45 de um cabo Ethernet encaixado na porta de um switchEthernet é a tecnologia de rede local com fio, definida pela família de normas IEEE 802.3, que diz como computadores, switches, câmeras e CLPs trocam dados por cabo: o formato do pacote (o “quadro”), o tipo de cabo e conector, a distância máxima e a velocidade. Na prática, “conexão Ethernet” é a ligação do equipamento por cabo de rede com conector RJ45 (ou por fibra óptica) a um switch ou roteador, em vez do Wi-Fi.

O nome vem do “éter luminífero”, o meio que a física do século XIX imaginava transportar a luz: a ideia original era um cabo compartilhado por onde a informação “se propagava” para todos. Hoje a Ethernet vai de 10 Mb/s a 800 Gb/s e está no PC de casa, no data center e no chão de fábrica. Este guia explica como ela funciona por dentro, que cabo usar para cada distância e velocidade, e os erros mais comuns de quem monta uma rede.

O que é Ethernet, em uma frase de engenheiro

Ethernet é um padrão das camadas 1 e 2 do modelo OSI: a camada física (sinal elétrico ou óptico no cabo) e a camada de enlace (endereço MAC e quadro). Ela não é a internet. A internet é uma rede de redes que usa o protocolo IP; a Ethernet é um dos meios por onde esse IP trafega dentro do prédio. Quando o Windows mostra “Ethernet” na lista de adaptadores, está falando da placa de rede com fio do PC — a porta RJ45 na traseira do gabinete ou na lateral do notebook.

Termo O que é Camada
Ethernet (IEEE 802.3) Rede local por cabo de cobre ou fibra Física + enlace
Wi-Fi (IEEE 802.11) Rede local sem fio; outra família de normas Física + enlace
IP / internet Endereçamento e roteamento entre redes Rede
Cabo Ethernet Cabo de par trançado (Cat5e, Cat6, Cat6A) com conector RJ45 Meio físico

Como a Ethernet funciona: o quadro

Toda informação que sai pela porta Ethernet é dividida em quadros. Cada quadro leva o endereço MAC de destino e de origem (6 bytes cada, gravados de fábrica na placa de rede), um campo que diz o que vem dentro (EtherType — por exemplo, IPv4), os dados e um código de verificação CRC de 32 bits. Quem recebe recalcula o CRC: se não bater, o quadro é descartado. É assim que a Ethernet detecta erro de transmissão causado por ruído, cabo ruim ou conector mal crimpado.

Campo do quadro Tamanho Função
Preâmbulo + SFD 7 + 1 bytes Sincroniza o receptor e marca o início do quadro
MAC de destino 6 bytes Para quem vai o quadro
MAC de origem 6 bytes Quem enviou
Tag 802.1Q (opcional) 4 bytes Identifica a VLAN e a prioridade
EtherType / comprimento 2 bytes Protocolo transportado (IPv4, IPv6, ARP…)
Dados (payload) 46 a 1.500 bytes A informação útil
FCS (CRC-32) 4 bytes Detecção de erro

O quadro mínimo tem 64 bytes (do MAC de destino ao CRC) e o máximo padrão, 1.518 bytes — 1.522 com a tag de VLAN. Entre um quadro e outro há um intervalo obrigatório de 12 bytes de silêncio. Esses números explicam por que a vazão útil fica um pouco abaixo da velocidade nominal: num link de 1 Gb/s com quadros cheios, cada 1.500 bytes de dados custam 1.538 bytes na linha (1.518 + 8 de preâmbulo + 12 de intervalo), cerca de 97,5% de aproveitamento antes de contar os cabeçalhos IP e TCP.

O papel do switch

O switch é o coração de uma rede Ethernet moderna. Ele aprende em qual porta está cada endereço MAC (olhando o MAC de origem dos quadros que chegam) e passa a entregar cada quadro somente na porta do destinatário. Por isso dois PCs podem conversar a 1 Gb/s enquanto outros dois fazem o mesmo, sem um atrapalhar o outro. Um switch Gigabit não gerenciável resolve a maioria das redes de escritório e residência: liga e funciona, sem configuração. Quando a rede precisa de VLAN, monitoramento ou redundância, entra o switch gerenciável.

CSMA/CD e colisões: por que quase não existem mais

A Ethernet original usava um único cabo coaxial compartilhado. Para que dois equipamentos não falassem ao mesmo tempo, ela adotou o CSMA/CD: escutar o meio antes de transmitir, detectar a colisão se dois começassem juntos e tentar de novo após um tempo aleatório. Esse mecanismo vale apenas em half duplex. Com switch e cabo de par trançado, cada enlace funciona em full duplex (transmite e recebe ao mesmo tempo, em pares distintos ou com cancelamento de eco), e não há colisão. A partir de 10 Gb/s a norma nem prevê mais o modo half duplex.

Se o contador de colisões de uma porta estiver subindo numa rede atual, o sintoma quase sempre é incompatibilidade de duplex: um lado fixado manualmente em 100 Mb/s full e o outro em autonegociação, que cai para half. A correção é deixar os dois lados em autonegociação ou fixar os dois iguais.

Velocidades e normas Ethernet

Cada velocidade é uma emenda da IEEE 802.3, com nome no formato “velocidade + BASE + meio” (T = par trançado, X/SX/LX = fibra). As placas e switches negociam sozinhos a maior velocidade comum aos dois lados.

Nome Velocidade Norma (ano) Cabo e alcance
10BASE-T 10 Mb/s 802.3i (1990) Par trançado Cat3 ou superior, 100 m
100BASE-TX (Fast Ethernet) 100 Mb/s 802.3u (1995) Cat5 ou superior, 100 m
1000BASE-T (Gigabit) 1 Gb/s 802.3ab (1999) Cat5e ou superior, 100 m, usa os 4 pares
2.5GBASE-T / 5GBASE-T 2,5 / 5 Gb/s 802.3bz (2016) Cat5e (2,5G) / Cat6 (5G), 100 m
10GBASE-T 10 Gb/s 802.3an (2006) Cat6A, 100 m (Cat6: até 55 m)
1000BASE-SX 1 Gb/s 802.3z (1998) Fibra multimodo 850 nm: até 550 m em OM2 ou superior (275 m em OM1)
1000BASE-LX 1 Gb/s 802.3z (1998) Fibra monomodo 1310 nm, 5 km na norma (10 km na variante LX10)
10GBASE-SR / LR 10 Gb/s 802.3ae (2002) SR: multimodo OM3, 300 m · LR: monomodo, 10 km
400G / 800G 400 / 800 Gb/s 802.3bs (2017) / 802.3df (2024) Fibra e cabos de cobre curtos em data center

Para escolher entre Fast Ethernet e Gigabit: Fast Ethernet ainda atende sensores, CLPs e equipamentos de automação de baixo tráfego; para PCs, câmeras IP e servidores, Gigabit é o piso atual.

Cabo Ethernet: o que é e qual escolher

O cabo Ethernet comum é um cabo de quatro pares de fios de cobre trançados, terminado em conectores RJ45 (oficialmente, 8P8C). O trançado cancela parte da interferência eletromagnética externa e a diafonia entre pares. A categoria (Cat5e, Cat6, Cat6A) define até que frequência o cabo foi certificado e, portanto, que velocidade ele carrega nos 100 m.

A regra dos 100 metros

Em par trançado, o limite é de 100 m por canal: até 90 m de cabo fixo na parede (enlace permanente) mais até 10 m somados de cabos de manobra nas duas pontas. Passou disso, o sinal chega atenuado e a placa começa a perder quadros (erro de CRC) ou negocia uma velocidade menor. A distância é contada entre dois equipamentos ativos — PC e switch, switch e switch —, então um switch no meio do caminho “reinicia” a contagem.

Quando usar fibra óptica

Acima de 100 m, entre prédios, ou em ambiente com muito ruído elétrico (inversores de frequência, motores, cabos de potência na mesma eletrocalha), a solução é fibra. A fibra não conduz eletricidade, então também elimina diferenças de potencial de terra entre prédios — causa clássica de portas queimadas. Para aproveitar um equipamento que só tem porta RJ45, usa-se um conversor de mídia RJ45 para fibra em cada ponta: multimodo para centenas de metros dentro do mesmo terreno, monomodo para quilômetros. Os conectores de fibra mais comuns são SC e LC; o guia sobre como escolher o conector de fibra compara os dois.

Componentes de uma rede Ethernet

  • Placa de rede (NIC): a interface Ethernet do equipamento. Vem integrada na placa-mãe; para ganhar portas, chegar a 2,5G ou 10G, ou separar redes num servidor, instala-se uma placa de rede PCI Express.
  • Switch: interliga os equipamentos da mesma rede local e encaminha quadros pelo endereço MAC (camada 2). Switches de camada 3 também roteiam entre VLANs.
  • Roteador: liga redes diferentes entre si e à internet, pelo endereço IP. O “roteador Wi-Fi” de casa é, na verdade, roteador + switch de 4 portas + ponto de acesso sem fio na mesma caixa.
  • Cabeamento: cabos de par trançado, patch panel, tomadas e, nos trechos longos, fibra com conversores ou módulos SFP.

Ethernet industrial

A mesma Ethernet do escritório virou a rede padrão da automação: PROFINET, EtherNet/IP e Modbus TCP são protocolos industriais que viajam dentro de quadros Ethernet comuns. O que muda é o equipamento. No painel elétrico, o switch precisa ser montado em trilho DIN, aceitar alimentação em 12–48 Vcc (muitas vezes com entrada redundante), suportar temperatura e vibração de painel e ter caixa metálica. Um switch de mesa ao lado de um inversor de frequência é a receita de travamentos intermitentes. Para esse ambiente existem os switches industriais para trilho DIN.

Exemplo prático: ligar um galpão a 250 m do escritório

Situação: o escritório tem a rede e o acesso à internet; o galpão, a 250 m, tem quatro câmeras IP e dois PCs.

  1. Cobre não serve: 250 m ultrapassa os 100 m do par trançado, e um cabo de cobre entre prédios ainda traz risco de surto por diferença de terra.
  2. Fibra multimodo atende: 1000BASE-SX vai até 550 m em multimodo 850 nm. Uma fibra de duas vias (ou uma via, com conversores WDM) e um par de conversores Gigabit fazem o enlace.
  3. No galpão: o conversor entrega uma porta RJ45 para um switch de 8 portas Gigabit; se as câmeras forem alimentadas pelo cabo, o switch precisa ser PoE.
  4. Banda: quatro câmeras a, digamos, 4 Mb/s cada somam 16 Mb/s — folga enorme num enlace de 1 Gb/s. O gargalo, se houver, estará no link de internet, não na Ethernet.

Erros comuns em redes Ethernet

  • Passar de 100 m em cobre “porque funcionou no teste”: o enlace sobe, mas acumula erros de CRC e cai sob carga ou calor.
  • Cabo com par rompido ou só dois pares ligados: o Gigabit (1000BASE-T) usa os quatro pares; com um deles falhando, o link negocia 100 Mb/s em vez de 1 Gb/s. Se a placa mostra 100 Mb/s, troque primeiro o cabo de manobra.
  • Duplex fixado de um lado só: gera colisões e lentidão; deixe os dois lados em automático.
  • Loop de cabo (as duas pontas de um cabo no mesmo switch, ou dois switches ligados por dois caminhos sem STP): derruba a rede inteira com tempestade de broadcast.
  • Cabo de rede junto de cabo de potência na mesma eletrocalha: induz ruído; mantenha separação ou use fibra.
  • Confundir Ethernet com internet: se o PC está “conectado” na Ethernet mas sem internet, a camada Ethernet está funcionando; o problema está no IP, no DNS ou no provedor.

Perguntas Frequentes

O que é Ethernet?

Ethernet é o padrão de rede local com fio (IEEE 802.3) que define como equipamentos trocam dados por cabo de par trançado ou fibra óptica: formato do quadro, endereço MAC, tipo de cabo, distância e velocidade, de 10 Mb/s a 800 Gb/s.

O que é uma conexão Ethernet?

É a ligação do computador ou equipamento à rede por cabo, normalmente um cabo com conector RJ45 até um switch ou roteador. Comparada ao Wi-Fi, ela tem latência menor e mais estável, não sofre com paredes nem interferência de rádio e entrega a velocidade nominal do enlace.

O que é cabo Ethernet?

É o cabo de rede de quatro pares trançados com conector RJ45 nas pontas, em categorias como Cat5e, Cat6 e Cat6A. Cat5e atende Gigabit a 100 m; para 10 Gb/s a 100 m, o cabo precisa ser Cat6A.

Ethernet e internet são a mesma coisa?

Não. A Ethernet é a rede local física, dentro da casa ou da empresa; a internet é a rede mundial que usa o protocolo IP. A Ethernet é um dos caminhos pelos quais o seu equipamento chega ao roteador, que então leva o tráfego até a internet.

O que é Ethernet no PC?

É a placa de rede com fio do computador — a porta RJ45 da placa-mãe ou de uma placa de rede instalada. No Windows ela aparece como “Ethernet” nas configurações de rede, separada do adaptador “Wi-Fi”.

Qual a distância máxima de um cabo Ethernet?

100 metros por canal em par trançado, sendo até 90 m de cabo fixo e 10 m de cabos de manobra. Para distâncias maiores, usa-se fibra óptica: centenas de metros em multimodo e quilômetros em monomodo.

Foto de Leandro Roisenberg

Leandro Roisenberg

Engenheiro Eletricista, formado pela Universidade Federal do RGS, em 1991. Mestrado em Ciências da Computação, pela Universidade Federal do RGS, em 1993. Fundador da LRI Automação Industrial em 1992. Vários cursos de especialização em Marketing. Projetos diversos na área de engenharia eletrônica com empresas da China e Taiwan. Experiência internacional em comercialização de tecnologia israelense em cybersecurity (segurança cibernética) desde 2018.

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