RSTP vs STP: o que é o Rapid Spanning Tree, como converge e quando usar ERPS

RSTP (Rapid Spanning Tree Protocol) é a versão rápida do STP (Spanning Tree Protocol): os dois impedem loops em uma rede Ethernet com caminhos redundantes, bloqueando os enlaces excedentes, mas o RSTP reconverge em geral em menos de um segundo, enquanto o STP clássico leva de 30 a 50 segundos com os temporizadores padrão. O RSTP nasceu como IEEE 802.1w, foi incorporado ao IEEE 802.1D-2004, que substituiu o STP original, e hoje faz parte do IEEE 802.1Q.

A seguir: por que o STP é lento, o que o RSTP mudou (papéis de porta, estados, handshake proposta/acordo, portas de borda), a compatibilidade entre os dois, quando nem o RSTP é rápido o bastante e os protocolos de anel usados na indústria, como ERPS e MRP.

Por que a rede precisa de spanning tree

Ethernet não tem campo de “tempo de vida” no quadro. Se houver dois caminhos entre dois switches, um quadro de broadcast circula pelo anel indefinidamente e se multiplica a cada volta: é a tempestade de broadcast, que satura enlaces e CPUs em segundos. As tabelas MAC também ficam instáveis, porque o mesmo endereço aparece ora em uma porta, ora em outra.

O spanning tree mantém a redundância física e monta sobre ela uma árvore lógica sem loops: elege um switch raiz, calcula o menor custo de cada switch até ele e bloqueia as portas que fechariam um laço. Quando um enlace ativo cai, uma porta bloqueada passa a encaminhar.

Como a árvore é calculada (vale para STP e RSTP)

  1. Eleição da raiz: vence o switch de menor Bridge ID = prioridade (padrão 32768, ajustável em passos de 4096) + endereço MAC.
  2. Porta raiz: em cada switch, a porta de menor custo acumulado até a raiz.
  3. Porta designada: em cada segmento, a porta que oferece o menor custo até a raiz.
  4. As demais portas não encaminham dados.

O custo de cada enlace depende da velocidade. O IEEE 802.1D-2004 adotou os custos “longos” de 32 bits; muitos equipamentos ainda permitem o método “curto” do 802.1D-1998:

Velocidade do enlace Custo curto (802.1D-1998) Custo longo (802.1D-2004)
10 Mbps 100 2.000.000
100 Mbps 19 200.000
1 Gbps 4 20.000
10 Gbps 2 2.000

Misturar switches com métodos de custo diferentes na mesma rede gera árvores inesperadas. Padronize um só método em todos os equipamentos.

Por que o STP (802.1D) é lento

O STP original depende de temporizadores fixos. Os valores padrão são Hello Time 2 s (intervalo entre BPDUs enviados pela raiz), Max Age 20 s (quanto tempo a informação recebida vale) e Forward Delay 15 s (duração de cada um dos estados intermediários). Uma porta bloqueada só encaminha depois de passar por Listening (15 s) e Learning (15 s).

Cálculo resolvido: o pior caso do STP

Imagine que um switch deixa de receber BPDUs pela porta raiz porque um enlace caiu em outro ponto da rede (falha indireta). Ele não percebe a falha pelo sinal elétrico; espera a informação envelhecer:

  • Max Age expira: 20 s
  • Listening: 15 s
  • Learning: 15 s
  • Total: 20 + 15 + 15 = 50 s sem tráfego naquele trecho

Se a falha for direta (a porta raiz perde o link), o Max Age é dispensado e o tempo cai para 15 + 15 = 30 s. Em uma rede de escritório isso já é incômodo; em automação, 30 segundos sem comunicação derrubam conexões de CLP, IHM e supervisório.

O que o RSTP (802.1w) mudou

O RSTP mantém o mesmo cálculo da árvore, mas troca a espera por temporizadores por uma negociação ativa entre vizinhos. As mudanças principais:

1. Estados de porta: de cinco para três

Estado no STP (802.1D) Estado no RSTP (802.1w) Encaminha dados? Aprende MAC?
Disabled Discarding Não Não
Blocking Não Não
Listening Não Não
Learning Learning Não Sim
Forwarding Forwarding Sim Sim

No STP, Blocking, Listening e Disabled se comportam da mesma forma para o tráfego. O RSTP reuniu os três em Discarding e separou o estado (o que a porta faz com o quadro) do papel (a função dela na árvore).

2. Papéis de porta: Alternate e Backup

  • Root: melhor caminho até a raiz (igual ao STP).
  • Designated: melhor porta do segmento para chegar à raiz (igual ao STP).
  • Alternate: caminho alternativo até a raiz, recebido de outro switch. Fica em Discarding, pronto para virar porta raiz imediatamente se a atual falhar.
  • Backup: caminho redundante para um segmento em que o próprio switch já é designado (caso raro, típico de meio compartilhado).
  • Disabled: porta administrativamente desligada.

A porta Alternate é a chave da velocidade: o switch já sabe qual é o caminho de reserva antes da falha acontecer.

3. Handshake proposta/acordo

Em um enlace ponto a ponto, quando uma porta quer se tornar designada, ela envia um BPDU com a flag Proposal. O vizinho coloca em Discarding suas outras portas não-borda (operação sync), responde com Agreement e a porta passa a Forwarding sem esperar o Forward Delay. A negociação se propaga switch a switch, em vez de cada um esperar 30 segundos.

4. Portas de borda (edge ports)

Uma porta ligada a um equipamento final (CLP, PC, câmera, servidor) pode ser configurada como edge port: vai direto para Forwarding ao subir o link e não gera aviso de mudança de topologia. Em equipamentos Cisco o recurso equivalente se chama PortFast. Se a porta de borda receber um BPDU, perde a condição de borda e passa a participar do spanning tree normalmente.

5. Tipo de enlace: ponto a ponto ou compartilhado

As transições rápidas só valem em enlaces ponto a ponto, que o switch identifica pela operação em full duplex. Em enlace compartilhado (half duplex, hub), o RSTP volta a depender dos temporizadores. Na prática, todo enlace switch-switch moderno é full duplex.

6. BPDU de todos os switches e detecção de falha em 6 s

No STP, só a raiz origina BPDUs; os demais retransmitem. No RSTP, todo switch envia BPDU a cada Hello Time (2 s), funcionando como sinal de vida entre vizinhos. Se uma porta deixa de receber três hellos seguidos, a informação é descartada: a falha indireta é detectada em até 3 × 2 = 6 s, em vez dos 20 s do Max Age. A falha direta (perda de link) é percebida na hora.

7. Mudança de topologia mais rápida

No STP, o aviso de mudança (TCN) sobe até a raiz e só depois desce para a árvore. No RSTP, o switch que detecta a mudança apaga as entradas MAC das demais portas e avisa os vizinhos diretamente (flag TC). E só uma porta não-borda que passa a Forwarding gera esse aviso.

STP x RSTP: comparação lado a lado

Item STP RSTP
Norma IEEE 802.1D (até a revisão de 1998) IEEE 802.1w; incorporado ao 802.1D-2004, hoje no 802.1Q
Estados de porta 5 (Disabled, Blocking, Listening, Learning, Forwarding) 3 (Discarding, Learning, Forwarding)
Papéis de porta Root, Designated, bloqueada Root, Designated, Alternate, Backup, Disabled
Quem envia BPDU Só a raiz origina Todos os switches, a cada Hello
Detecção de falha indireta Max Age, 20 s 3 hellos perdidos, 6 s
Transição para encaminhar Temporizadores: 30 s Handshake proposta/acordo
Convergência típica 30 a 50 s Normalmente abaixo de 1 s em enlaces ponto a ponto
Portas de borda Recurso proprietário (ex.: PortFast) Parte da norma

RSTP é compatível com STP?

Sim, por porta. Quando uma porta RSTP recebe BPDU do 802.1D antigo, passa a falar STP naquela porta, e aquele trecho volta a convergir na velocidade do STP. Por isso, uma rede “em RSTP” com um único switch legado no meio não tem o desempenho esperado. A migração pode ser gradual, mas o ganho só aparece por inteiro quando todos os switches do domínio usam RSTP.

O MSTP (IEEE 802.1s, hoje no 802.1Q) usa os mesmos mecanismos rápidos do RSTP e acrescenta várias instâncias de árvore, cada uma associada a um grupo de VLANs, permitindo que VLANs diferentes usem enlaces diferentes. O MSTP é compatível com o RSTP nas fronteiras de região. Para um panorama dos três protocolos, veja o artigo STP, RSTP e MSTP em switches Ethernet.

Quando nem o RSTP basta: ERPS e MRP em redes industriais

A norma do RSTP não garante um tempo de convergência fixo. Ele depende do número de switches, da topologia e da implementação, e em anéis com muitos switches cresce a cada salto. Em redes de escritório, algumas centenas de milissegundos passam despercebidas. Em automação, onde um CLP pode declarar falha de comunicação após poucos ciclos de varredura, usam-se protocolos dedicados a anel:

Protocolo Norma Topologia Onde aparece
RSTP IEEE 802.1D-2004 / 802.1Q Qualquer malha Redes corporativas e industriais em geral
MSTP IEEE 802.1s / 802.1Q Qualquer malha, várias instâncias Redes com muitas VLANs
ERPS ITU-T G.8032 Anel Switches industriais e de operadora; objetivo de comutação de 50 ms na norma
MRP IEC 62439-2 Anel PROFINET e automação industrial

No ERPS, um enlace do anel é o RPL (Ring Protection Link), mantido bloqueado pelo nó dono do RPL. Quando outro enlace do anel cai, os nós avisam com mensagens de falha e o RPL é desbloqueado. Sem cálculo de árvore, a recuperação é muito mais rápida. Os switches industriais gerenciáveis da IRD.Net suportam STP, RSTP, MSTP e ERPS; o switch industrial de 8 portas Gigabit L2+ com 4 SFP e alimentação redundante, por exemplo, especifica recuperação ERPS abaixo de 20 ms.

Uma regra prática: num anel ERPS, desligue o spanning tree nas duas portas do anel e mantenha o RSTP no restante da rede, para pegar loops acidentais em portas de acesso.

Exemplo prático: anel de 6 switches numa linha de produção

Seis switches gerenciáveis formam um anel de fibra ao longo de uma linha, cada um atendendo um painel com CLP e IHM. O switch da sala de controle liga o anel ao núcleo da rede.

  1. Defina a raiz: configure a prioridade do switch da sala de controle para 4096 (ou 0) e a de um segundo switch para 8192, que será a raiz de reserva. Sem isso, a raiz é o switch com menor MAC, que pode ser um switch de painel no fim da linha.
  2. Portas de borda: declare como edge as portas de CLP, IHM e câmeras. O CLP volta a comunicar logo após religar, sem esperar o spanning tree e sem gerar mudança de topologia na rede inteira.
  3. Proteja as bordas: ative BPDU Guard (ou o equivalente do fabricante) nas portas de borda; se alguém ligar um switch não gerenciável com um loop, a porta é desativada em vez de derrubar o anel.
  4. Escolha o protocolo do anel: se o processo tolera algumas centenas de milissegundos, RSTP resolve. Se o CLP precisa de recuperação na casa das dezenas de milissegundos, use ERPS (ou MRP numa rede PROFINET), com todos os switches do anel no mesmo protocolo.
  5. Teste: com um ping contínuo de intervalo curto entre dois CLPs, desconecte um enlace do anel e conte os pacotes perdidos. É a forma mais direta de medir a convergência real da sua instalação.

Erros comuns

  • Deixar a eleição da raiz ao acaso. Com prioridades padrão, vence o menor MAC, normalmente o switch mais antigo. O tráfego passa a fluir por ele.
  • Não configurar portas de borda. Equipamentos finais ficam até 30 s sem rede ao religar (com DHCP falhando no caminho) e cada religamento gera mudança de topologia.
  • Um switch STP legado no meio do domínio RSTP. Aquele trecho converge na velocidade do STP.
  • Rodar RSTP e ERPS nas mesmas portas de anel: os dois protocolos tentam bloquear enlaces diferentes.
  • Esperar tempo fixo do RSTP. A norma não garante milissegundos; se o processo exige um número, especifique um protocolo de anel com tempo declarado pelo fabricante e meça na instalação.

Para entender como o loop se forma e como o STP o bloqueia passo a passo, veja também como o STP evita loops em redes Ethernet. Para redes corporativas sem exigência industrial, os switches gerenciáveis L2 da IRD.Net atendem a topologias redundantes comuns; confira na ficha de cada modelo quais protocolos de spanning tree ele suporta.

Perguntas Frequentes

O que é RSTP?

RSTP (Rapid Spanning Tree Protocol) é o protocolo IEEE que evita loops em redes Ethernet com caminhos redundantes, bloqueando os enlaces excedentes e reativando-os quando um caminho falha. Foi publicado como IEEE 802.1w, incorporado ao 802.1D-2004 e converge, em geral, em menos de um segundo.

Qual a diferença entre STP e RSTP?

Os dois calculam a mesma árvore sem loops. O STP espera temporizadores fixos e leva de 30 a 50 s para reconvergir; o RSTP negocia diretamente com o vizinho (proposta/acordo), mantém portas Alternate prontas para assumir, tem portas de borda e detecta falhas em até 6 s, convergindo normalmente abaixo de 1 s.

Qual é o padrão IEEE do STP e do RSTP?

O STP é o IEEE 802.1D (revisões até 1998). O RSTP é o IEEE 802.1w, que foi incorporado ao IEEE 802.1D-2004 e substituiu o STP original nessa revisão. O MSTP é o IEEE 802.1s. Hoje os três estão consolidados no IEEE 802.1Q.

RSTP funciona junto com STP na mesma rede?

Funciona. A porta RSTP que recebe BPDU do STP passa a operar em modo STP naquela porta. A rede continua sem loops, mas o trecho com o switch legado converge na velocidade do STP, de 30 a 50 s.

RSTP é rápido o bastante para automação industrial?

Depende do processo. O RSTP costuma convergir abaixo de 1 s, mas a norma não garante um tempo fixo e em anéis grandes o tempo cresce. Quando o CLP exige recuperação em dezenas de milissegundos, use ERPS (ITU-T G.8032) ou MRP (IEC 62439-2) no anel.

Foto de Leandro Roisenberg

Leandro Roisenberg

Engenheiro Eletricista, formado pela Universidade Federal do RGS, em 1991. Mestrado em Ciências da Computação, pela Universidade Federal do RGS, em 1993. Fundador da LRI Automação Industrial em 1992. Vários cursos de especialização em Marketing. Projetos diversos na área de engenharia eletrônica com empresas da China e Taiwan. Experiência internacional em comercialização de tecnologia israelense em cybersecurity (segurança cibernética) desde 2018.

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