IGMP Snooping: o que é, como funciona e quando ativar (ou não)

Diagrama do IGMP Snooping: o switch entrega o tráfego multicast só às portas que pediram o grupoIGMP Snooping é o recurso do switch que “escuta” as mensagens IGMP trocadas entre os equipamentos e o roteador e, com elas, monta uma tabela de quais portas pediram cada grupo multicast — e passa a entregar aquele tráfego só a essas portas. Sem ele, o switch trata o multicast como broadcast e o replica em todas as portas da VLAN, inclusive nas que nunca pediram aquele vídeo, áudio ou dado.

Na prática, ativar o IGMP Snooping é o que separa uma rede com câmeras IP, IPTV ou automação multicast funcionando bem de uma rede em que portas de 100 Mbps saturam com tráfego que ninguém está assistindo. Este guia explica o que é o IGMP, como o snooping funciona por dentro, quando ativar (e quando ele atrapalha), a diferença para o IGMP Proxy e os erros de configuração mais comuns — com os valores das RFCs que definem o protocolo.

O que é IGMP

O IGMP (Internet Group Management Protocol) é o protocolo que os hosts IPv4 usam para avisar ao roteador da sub-rede que querem receber o tráfego de um grupo multicast. Ele roda diretamente sobre o IP (protocolo IP número 2), com TTL 1, ou seja, nunca sai da sub-rede local. Os grupos multicast IPv4 ficam na faixa 224.0.0.0 a 239.255.255.255 (224.0.0.0/4).

Há três versões, todas ainda encontradas em campo:

Versão Norma O que trouxe Impacto no snooping
IGMPv1 RFC 1112 (1989) Query e Membership Report. Não existe mensagem de saída: o host simplesmente para de responder. A porta só é removida do grupo quando a entrada expira por tempo.
IGMPv2 RFC 2236 (1997) Mensagem Leave Group (enviada a 224.0.0.2), query específica de grupo e eleição de querier pelo menor endereço IP. Permite remover a porta rapidamente quando o último receptor sai.
IGMPv3 RFC 3376 (2002) Filtro por fonte (modos INCLUDE/EXCLUDE): o host escolhe de qual origem quer o grupo. Reports enviados a 224.0.0.22. Base do multicast de fonte específica (SSM, faixa 232.0.0.0/8, RFC 4607). O switch precisa entender v3 para ler esses reports e criar as entradas; um snooping que só entende v2 não registra os grupos pedidos em v3.

Em IPv6 a função equivalente é do MLD (MLDv1, RFC 2710; MLDv2, RFC 3810), e o recurso correspondente no switch é o MLD Snooping.

Por que o switch precisa de IGMP Snooping

O switch encaminha quadros pela tabela de endereços MAC. Um quadro multicast IPv4 tem MAC de destino na faixa 01:00:5E:00:00:00 a 01:00:5E:7F:FF:FF, que nunca aparece como endereço de origem — então o switch nunca o “aprende” e, por padrão, inunda (flood) o quadro em todas as portas da VLAN, como faria com um broadcast.

O IGMP Snooping resolve isso olhando para dentro das mensagens IGMP (que são de camada 3) e criando entradas de encaminhamento multicast de camada 2. Por isso ele é um recurso típico de switch gerenciável L2: o comportamento é documentado nas considerações da RFC 4541, e a maioria dos switches não gerenciáveis simplesmente inunda o multicast (alguns trazem snooping fixo de fábrica — confira na ficha técnica).

Um detalhe que gera confusão: o mapeamento de IP multicast para MAC usa só os 23 bits menos significativos do endereço IP. Cinco bits se perdem, então 32 grupos IP diferentes caem no mesmo MAC (por exemplo, 224.1.1.1 e 239.129.1.1 viram ambos 01:00:5E:01:01:01). Switches que filtram por MAC, e não por IP, entregam os dois grupos juntos. Ao planejar endereços de câmeras ou fluxos, evite grupos que colidam no mesmo MAC.

Como o IGMP Snooping funciona, passo a passo

  1. O roteador (ou querier) pergunta. Periodicamente ele envia uma General Query para 224.0.0.1 (todos os hosts). O switch marca a porta onde recebeu a query como porta de roteador multicast (mrouter).
  2. O host responde. Quem quer um grupo envia um Membership Report. O switch lê o report, cria (ou renova) a entrada “grupo X → porta Y” e encaminha o report só para a porta mrouter — não para os outros hosts.
  3. O tráfego do grupo chega. O switch entrega os quadros do grupo apenas às portas registradas e à porta mrouter.
  4. O host sai. No IGMPv2/v3 o host envia Leave (ou um report de mudança de estado, no v3). O querier manda uma query específica do grupo; se ninguém mais responder naquela porta, a entrada é removida.
  5. Ninguém respondeu. Se a porta para de responder às queries, a entrada expira pelo Group Membership Interval.

Uma exceção importante, prevista na RFC 4541: o tráfego para a faixa 224.0.0.0/24 (bloco de controle da rede local, usado por protocolos como OSPF, VRRP e mDNS em 224.0.0.251) deve continuar sendo inundado em todas as portas, mesmo com snooping ligado. Esses protocolos não enviam report e quebrariam se fossem filtrados.

Os temporizadores que você vai encontrar na configuração

Os valores padrão abaixo são os das RFC 2236 (IGMPv2) e RFC 3376 (IGMPv3). Os switches costumam expô-los com estes mesmos nomes:

Parâmetro Padrão O que controla
Query Interval 125 s Intervalo entre General Queries do querier.
Query Response Interval (Max Response Time) 10 s Tempo máximo para o host responder a uma query.
Robustness Variable 2 Quantas perdas de pacote a rede tolera; multiplica os demais tempos.
Group Membership Interval 260 s (2 × 125 + 10) Tempo sem resposta até a porta sair do grupo.
Last Member Query Interval 1 s Intervalo das queries específicas enviadas depois de um Leave.
Other Querier Present Interval 255 s (2 × 125 + 10/2) Tempo sem ouvir o querier eleito até outro equipamento assumir.

Esses números explicam o sintoma mais clássico de rede multicast mal configurada: o vídeo funciona por uns quatro minutos e para. Os 260 s do Group Membership Interval (valor padrão da RFC; alguns switches usam outro tempo de expiração) são o tempo que uma entrada sobrevive quando ninguém está enviando queries.

IGMP Querier: a peça que costuma faltar

O snooping só renova a tabela se alguém fizer as perguntas. Em redes roteadas, quem pergunta é o roteador multicast (ou um switch camada 3 com PIM). Em uma rede de camada 2 pura — o caso típico de CFTV, de chão de fábrica ou de uma sala de controle — não há roteador multicast, e alguém precisa assumir o papel de IGMP Querier. Habilite o querier em um switch por VLAN (de preferência o do núcleo); se houver mais de um, vence o de menor endereço IP. O assunto está detalhado no nosso artigo sobre IGMP Querier.

Exemplo prático: quanto o snooping economiza

Considere um cenário hipotético, para dimensionamento: uma VLAN de CFTV com 12 câmeras enviando cada uma um fluxo multicast de 8 Mbit/s para o servidor de gravação, num switch Fast Ethernet (portas de 100 Mbit/s) que também atende estações de monitoramento.

Sem IGMP Snooping Com IGMP Snooping + querier
Tráfego multicast que chega a cada porta 12 × 8 = 96 Mbit/s em todas as portas Só os fluxos que aquela porta pediu
Ocupação de uma porta de 100 Mbit/s que não assiste nada ≈ 96% (o downlink fica praticamente cheio) 0%
Estação que assiste 2 câmeras Recebe as 12 e descarta 10 Recebe 16 Mbit/s

Basta mais uma câmera para que o fluxo multicast inundado passe de 100 Mbit/s e comece a perder pacotes em todas as portas Fast Ethernet — inclusive no tráfego unicast das estações. É por isso que, em CFTV multicast, IGMP Snooping com querier não é otimização: é requisito.

Onde o IGMP Snooping faz diferença

  • CFTV e VMS com multicast: várias estações assistindo às mesmas câmeras sem multiplicar o tráfego na origem.
  • IPTV e sinalização digital: cada canal é um grupo; o receptor só recebe o canal sintonizado.
  • Automação industrial EtherNet/IP: o I/O implícito pode ser enviado em multicast; o manual de planejamento de rede da ODVA recomenda switches com IGMP Snooping e um querier na rede.
  • Áudio e vídeo sobre IP: fluxos multicast RTP (como em sistemas AES67) dependem do snooping para não inundar a rede.

Onde ele não age: as mensagens GOOSE e Sampled Values da IEC 61850 (subestações) são multicast de camada 2, com EtherTypes próprios (0x88B8 e 0x88BA), sem IP — não há IGMP envolvido. Para elas, o controle se faz por VLAN e por filtros multicast estáticos no switch.

IGMP Snooping: ativar ou não?

Ative quando houver tráfego multicast relevante na rede (câmeras, IPTV, EtherNet/IP, áudio/vídeo IP) e garanta que exista um querier ativo em cada VLAN. O snooping não interfere no tráfego unicast nem no broadcast.

Desative (ou revise) quando não houver querier e você não puder habilitar um: nesse caso, dependendo do fabricante, as entradas expiram e o fluxo é cortado, ou o multicast não registrado volta a ser inundado. Também vale revisar se algum dispositivo de descoberta deixar de aparecer depois de ativar o recurso — protocolos como SSDP/UPnP (239.255.255.250) estão fora da faixa 224.0.0.0/24 e dependem de os equipamentos enviarem reports corretamente.

No roteador doméstico, a opção costuma vir como “IGMP Snooping” ou “Multicast Snooping”. Se você usa IPTV da operadora, deixe-a ativada; se não usa multicast, ela é indiferente para navegação comum.

IGMP Snooping x IGMP Proxy

IGMP Snooping IGMP Proxy
Onde roda Switch (camada 2) Roteador (camada 3), RFC 4605
O que faz Escuta as mensagens e filtra em quais portas o multicast sai Responde pelos hosts da rede interna à rede externa (interface upstream) e faz o papel de querier na rede interna (interfaces downstream)
Uso típico CFTV, automação, LAN corporativa IPTV da operadora chegando pelo roteador de borda

Proxy IGMP: ativar ou não? Ative se o serviço multicast vem de fora da sua rede (IPTV da operadora, por exemplo); sem ele, o roteador não repassa os pedidos de canal para fora. IGMP Proxy v2 ou v3? Use a versão que a rede da operadora exige; na dúvida, v3, que pela RFC 3376 interopera com hosts e roteadores v2 e é obrigatória para multicast de fonte específica (SSM).

Como configurar IGMP Snooping no switch gerenciável

  1. Habilite o IGMP Snooping globalmente e em cada VLAN que transporta multicast — em muitos switches ele é por VLAN.
  2. Habilite o IGMP Querier em um único switch por VLAN, ou confirme que o roteador/switch L3 faz esse papel.
  3. Confira a porta mrouter: ela deve ser detectada automaticamente pela query; se o servidor de gravação ou o roteador não enviar queries, configure-a estaticamente.
  4. Use Fast Leave (Immediate Leave) só em portas com um único receptor (uma câmera, um decodificador). Em portas com vários hosts — por exemplo, uplink para outro switch — ele corta o fluxo dos demais.
  5. Defina o tratamento de multicast não registrado (flood ou descarte) de acordo com a aplicação.
  6. Valide na tabela de grupos do switch (IGMP group table) se cada grupo aparece nas portas certas.

Na IRD.Net, o switch gerenciável L2 de 48 portas Gigabit com 4 SFP traz IGMP Snooping v1/v2/v3 e MLD v1/v2 na ficha técnica, e o switch industrial gerenciável L2 de 24 portas lista IGMP Snooping e MVR, para quem precisa do recurso em ambiente de fábrica ou subestação.

Erros comuns com IGMP Snooping

  • Ativar o snooping sem querier. O resultado é o fluxo que cai depois de alguns minutos (o Group Membership Interval de 260 s).
  • Dois queriers brigando com versões diferentes. Padronize a versão de IGMP em todos os equipamentos da VLAN.
  • Esperar segurança do snooping. Ele é um recurso de eficiência, não de controle de acesso: qualquer host da VLAN pode enviar um report e passar a receber o grupo. Para isolar tráfego, use VLANs e listas de controle.
  • Fast Leave em uplink. Um único Leave derruba o grupo para todos os switches a jusante.
  • Grupos que colidem no mesmo MAC. Lembre-se do mapeamento 32:1; endereços como 224.1.1.1 e 225.1.1.1 compartilham o MAC 01:00:5E:01:01:01.
  • Snooping ligado em um switch e não nos outros. Basta um switch inundando no meio do caminho para o problema voltar nos segmentos atrás dele.

Perguntas Frequentes

O que é IGMP Snooping?

É o recurso do switch que lê as mensagens IGMP entre hosts e roteador para saber quais portas pediram cada grupo multicast e entregar esse tráfego só a elas, em vez de replicá-lo em todas as portas da VLAN.

O que é IGMP?

IGMP (Internet Group Management Protocol) é o protocolo com que os hosts IPv4 entram e saem de grupos multicast, informando ao roteador local quais grupos querem receber. Existem as versões 1, 2 e 3 (RFC 1112, 2236 e 3376).

IGMP Snooping: ativar ou não?

Ative se a rede tem multicast (câmeras, IPTV, automação, áudio/vídeo IP) e há um IGMP Querier ativo em cada VLAN. Sem querier, o snooping pode cortar os fluxos depois de cerca de quatro minutos; nesse caso, habilite o querier antes de ativar o snooping.

Proxy IGMP: ativar ou não?

Ative no roteador quando o multicast vem de fora da rede, como na IPTV da operadora. Se não há serviço multicast externo, ele é desnecessário.

IGMP Proxy v2 ou v3?

Use a versão exigida pela rede que fornece o multicast. Na dúvida, prefira v3: ela interopera com v2 e é necessária para multicast de fonte específica (SSM).

Qual a diferença entre IGMP Snooping e Multicast Snooping?

“Multicast Snooping” é o nome genérico usado por alguns fabricantes; em IPv4 ele corresponde ao IGMP Snooping e, em IPv6, ao MLD Snooping.

Foto de Leandro Roisenberg

Leandro Roisenberg

Engenheiro Eletricista, formado pela Universidade Federal do RGS, em 1991. Mestrado em Ciências da Computação, pela Universidade Federal do RGS, em 1993. Fundador da LRI Automação Industrial em 1992. Vários cursos de especialização em Marketing. Projetos diversos na área de engenharia eletrônica com empresas da China e Taiwan. Experiência internacional em comercialização de tecnologia israelense em cybersecurity (segurança cibernética) desde 2018.

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